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Rodrigo no mundo dos contos, contos no mundo de Rodrigo


O Examinador

Cheguei cedo para trabalhar. Faz alguns meses que comecei neste emprego, e até que não é dos piores. Carga horária de seis horas diárias. Duas folgas semanais. A mesma coisa sempre. O que muda são as pessoas e seus problemas. Abro, examino, fecho. O pior é o cheiro. Todos fedem, mas já me acostumei. As mulheres estão aparecendo mais. Elas tendiam a fugir de mim. Agora não. Faço o que quero e a última palavra é a minha. Lembrei dos noturnos de Chopin, do whisky sem gelo, de Bukowski. Mas estava ali. Apenas de corpo presente. Eu e os instrumentos necessários para o trabalho. Um corpo inerte como aqueles que se encontram sobres as macas. Todos temos defeitos.

Meus talentos e conhecimentos não são muito práticos, mas me viro. Estatura mediana, branco, olhos azuis, cabelos negros, sem barba. E sem família. De uma forma ou de outra tenho que trabalhar. No começo era tímido. Agora já perdi até o nojo. É só limpar bem o local. Todas as minhas representações são situações reais. E o vício é o principal responsável por isso. Depois que se experimenta, é difícil sair. Aumenta a sensibilidade e deste modo desejo o que não é desejado por muitos. O ponto de partida é a chegada. E espero mais uma. Helena. Esse nome tem história na literatura.

Batem à porta. Ela chegara. Quem a trouxe é pessoa de confiança. Perguntei se gostaria de participar do trabalho. Respondeu que não, pegou o dinheiro e foi embora. Fui em direção dela. Deitada de lado, a cabeça sobre o braço esquerdo. A perna direita dobrada sobre a outra. O outro braço para fora da maca. Mulher nova. Ainda quente. Parece me esperar. E sem odores. Mesmo assim, acendi um incenso e um cigarro. Expressão séria, seios fartos, coxas grossas e lábios à espera de beijo. Beijo com aroma de bebida. Vestido verde, meia calça preta e calcinha da mesma cor.

Em vez de atingir diretamente o centro de seu corpo ou algum recanto mais profundo, deito-a com barriga para cima, os braços atrás da cabeça servindo de apoio, pernas esticadas sobre a maca e fumaça de cigarro em meu olho. De uma forma ou de outra, todas as que passaram por aqui, estavam envolvidas num misto de culto ao sexo e à beleza. E pelo menos não fingem os orgasmos. Pele suave, juvenil. Obcecado por esta idéia, quando o desejo toma conta de cada poro e pelo do corpo, apago o cigarro e viro-a de bruços, uma mão sobre a outra, a cabeça apoiada nelas, pernas esticadas.

Hora da autópsia. Quem deseja tem sempre razão, porque atende a um apelo natural. Algo inflamou em mim, sem tabus sem medos e dúvidas. Antes de trabalhar aqui eu nunca havia feito nada além de...de.....bem, não vem ao caso. Tenho que me concentrar aqui. Com movimentos contínuos, vou sentindo seu corpo, descobrindo sua sexualidade, mãos a vasculhar orifícios apertados. Que homem dotado de órgãos vigorosos, não deseja molestar o corpo alheio? Até que ponto, se há algo de absurdo no mundo, um homem pode controlar seus desejos? Levanto seu vestido, o botão da abertura, a carne macia, pequenas delicadezas que me atraem. O golpe será dado. Uma única vez. Meus excessos são refinamentos de minha baixeza. Leviano e brutal empurro até o fundo. Sobre seu corpo vou alternando os movimentos. Não tive como conter o gozo. Uma pausa para um cigarro e para calibrar o instrumento. Ainda não acabei a autópsia.

 



Escrito por Rodrigo às 13h21
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Fugindo Botas Ensolaradas

Abro a carta, vem de outra cidade. Diz que ele virá hoje é o que está escrito. E eu nem sabia que ele ainda existia. Também nem me preparei. Agora me escreve, me instiga. Pede que eu o espere. Não posso, tenho as crianças, a casa, meu marido. Queria que ele estivesse em casa. Romilda serve o almoço. Olho de novo a carta. A mesa posta. E eu nem sabia que ele ainda existia. Espero que agora não haja nenhum mal entendido. Será que mudou? Era tão lindo, tão estiloso e tão revoltado. Ele usava umas botas pretas de couro, dessas tipo caubói e jaqueta do mesmo material. Somos diferentes. Ele sempre fugiu das responsabilidades. Nem parece que temos o mesmo sangue. Devo deixar de lado o que passou? A campainha. Deve ser ele. Abro a porta, ele entra, me olha e eu leio a verdade, e esta me dói, no ventre. É uma dor de ter feito o que não desejava, ou sim. Tentei não pensar em nada, mas em tudo pensei. Ainda bem que conheci meu esposo.

Porém, a comida sobre a mesa é só espera. Romilda nos olha e aguarda uma resposta. Minha? Não sei. Talvez até dele próprio. Ela que o conhece desde pequeno. Olho para ele, não falo coisa com coisa. Tenho razões de sobra para não me sentir segura. Droga. Sei o que devo fazer. Digo para que ele sente à mesa, que não se acanhe, comida caseira, preparada há pouco. Romilda me olha, desvio o olhar. Ele senta ao meu lado e sente-se em casa. A sua ex- casa. Ele me olha como se não entendesse. Levanto da mesa e ele também. Peço a ela para buscar as crianças na escola. Vou até a sala e ele me segue, escuto o barulho das botas pelo corredor. Digo para sente no sofá, o que recusa, prefere ficar em pé. Eu também fico. Pergunta pelas crianças, uma em especial, falo que vão bem. Pergunta por meu marido, respondo que está bem, que virá para o almoço e pergunto:

- O que quer?

- Quero relembrar. Vou embora amanhã.

- Não temos o que relembrar.

- É mesmo? O segredo do passado faz parte do presente.

- Só se for do teu presente. As crianças têm um bom pai.

- Pena que não tenham uma boa mãe.

- Tu nunca quis saber dele. E eu nem sabia que tu ainda existia.

- Ainda existo. E uma parte de mim sempre vai estar contigo.

Ele vem para cima de mim e me agarra pelo pescoço. Vi raiva nos seus olhos. Tento me soltar, não consigo. Ele me bate no rosto e caio no sofá. As crianças vão chegar daqui a pouco, penso. Vão me ver assim. Devia ter contado a verdade antes, agora é tarde. Bem, menos mal que é só uma delas, pior se fosse as três. Não esqueci os erros cometidos. E para todos os efeitos, ele é o errado. Ele fala algumas coisas que não entendo e me bate de novo. Desta vez sangro.

- Tu não presta mesmo.

- Isso não é novidade.

- Achei que tinha mudado.

- E mudei. Antes eu não batia em mulher.

Me agarra pelo braço e me puxa do sofá. Bate outra vez. Rasga minha blusa e arranca o sutiã. Tento sair, mas quase quebra meu braço. Agarra meu cabelo e levanta minha saia. Cuspo na cara dele, uma mistura de saliva e sangue. Bate de novo e sinto desfalecer. Caio no chão, iluminada pelo sol que entra pela janela. Sem forças para reagir, ele me invade como das outras vezes. Minutos depois ele sai de cima de mim, satisfeito da sua vontade incestuosa. Ainda no chão, vejo o sol iluminar um par de botas fugindo.

As crianças vão chegar daqui a pouco.



Escrito por Rodrigo às 13h18
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Uma Pessoa

 

            Presenciei um acontecimento que não tenho como não relatá-lo agora. Encontrei uma pessoa na praça ontem. Parecia comigo. Fico bem de cabelos grisalhos. A sua aparência é a de uma pessoa doente. Não me viu passar e eu fingi que não o vi. Mesmo assim escutei as palavras que dizia. Coisas insensatas e desconexas, como essas: cumprir o que não foi ainda relatado aos homens de bem, tudo vai parar de repente, mas não sei quando e nem como, apenas sei sabendo, as ruas estão infectadas por pessoas infectadas. Levava uma sacola na mão, e continuei a vê-lo de uma distancia segura. Algo não ia bem. Pensei em pedir ajuda a uma mulher que passava naquele momento, mas não. A miséria parece não sensibilizar algumas pessoas, - eu também? - que se consideram seres privilegiados. Tolos. De quem é a culpa?

            Não sei quanto tempo fiquei observando. Encostado numa árvore, via sem ser visto. Poucas pessoas passavam pelo local. Destas, uma ou outra reparava nele, ria e continuavam andando. Como se a loucura e o sofrimento fossem motivo de riso. Falava alto. Voz que há tempos eu não ouvia. Gesticulava muito. Andava para lá e para cá, parava e continuava a andar. Depois de um tempo sentou em um toco de árvore, largou a sacola e imóvel ficou olhando para cima com os braços abertos. Braços que antes eram fortes e seguros. Braços que balançavam um sonho. Agora, estava de costas para mim, numa distancia que era possível ouvi-lo. Já havia anoitecido, mas não era tarde. Mesmo assim eu não podia demorar.

            Levantou-se, ele voltou a falar coisas sem sentido. Quando deixar de chover, vai limpar o tempo e vai aclarar o céu. Apanhar o sereno da madrugada é estar úmido de dia, ao relento, o chuvisco vem em gotas. Eu escutava tudo aquilo que ele falava, ali, em pé, a metros de distancia. Parou como se escutasse algo. Não queria que ele me descobrisse atrás daquela árvore. Na satisfação do desconforto, o meu castigo vem num mar de rosas e minha consolação e dependência é sujeitar-me a tudo. Terminou de falar isso e sentou-se outra vez. E eu ainda sem nada entender aquilo tudo. Olhei o relógio. Mais um pouco e perco a noite. Ou não. Vai saber. Ainda sentado, esfregava as mãos e se balançava para frente e para trás.

Afirmo na minha contrariedade, que certifico a minha recusa de maneira simples, enfática e definitiva. Minha exatidão está no erro, no legítimo disparate da incapacidade de conhecer o dilema incerto e seguro da vida em sociedade.

Em pé pela última vez despiu-se e retirou da sacola a garrafa contendo gasolina, despejou-a sobre seu corpo, virou-se para mim e ateou fogo nele próprio. Eu quis correr em sua direção, mas continuei imóvel, quis gritar, mais calei.

Quisera eu naquele momento ter riscado o fósforo.

 



Escrito por Rodrigo às 17h18
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Dois Amigos

 

Angelo nasceu numa tarde chuvosa de verão. Daí seu nome. Coisa da mãe, falecida quando ele ainda era criança. Ela dizia: A chuva é o choro dos anjos. Era um rapaz diferente do que é hoje. Mais tímido, de gestos sutis, voz pausada e passo incerto. Ainda na infância, deitava na grama e olhava as nuvens formando desenhos no céu. Ele não acreditava em anjos. Desde cedo conviveu com a realidade da vida e com o barulho ocasionado pelos tiros no bairro onde morava. Quando completou dezoito anos, ganhou uma arma de seu pai. Dizia que homem sempre devia andar armado. Morava com dois primos mais velhos, a madrasta e o pai. Estes viviam de pequenos trabalhos. Tão pequenos que não apareciam mais. Os outros, cada um por si. Angelo não gostava deles. Nem de onde morava.

No tempo em que trabalhava, preferia não voltar para casa após o expediente. Estava mais seguro na rua do que em casa. Acabava a noite sempre em algum bordel. Era um rapaz diferente do que é hoje. Sem bigode nem cavanhaque, mais pálido que branco. Os cabelos compridos não passam de recordação. Mesmo com 35 anos, já tinha rugas. Ia vivendo a sua rotina, sem nada de bom para acrescentar à sua vida. Era um escaldante domingo de verão quando Angelo conheceu Agnelo numa casa de prostituição.

Ficaram amigos. A relação estabelecida entre eles era de confiança e respeito. Começaram a andar mais tempo juntos. Já havia um bom entendimento entre os dois. Parece até que já se conheciam. Há semelhança entre eles. Até no jeito de falar. Fisicamente não, mas na maneira de pensar e no modo de agir sim. Um sabia o que queria, o outro não.

Angelo falava muito de seu novo amigo para os colegas do trabalho. Dizia que algum dia eles iriam conhecê-lo. Em casa também, mas não lhe davam atenção. Conhecer o Agnelo modificou sua vida. Começou a fazer coisas que não fazia antes. Descuidou da aparência, começou a fumar e a realizar pequenos delitos. E Tudo por influência do amigo. Tudo corria bem, até o dia em que Angelo adoeceu. Largou o emprego. Vez ou outra perdia a razão. Mas ainda mantinha a habilidade no manuseio da arma.

Sem saber qual o rumo a seguir, perambulava pelos caminhos de sua existência, sem encontrar algo de concreto. Uma impressionante mescla de alegria e tristeza era notada em seu semblante. Quando não conseguia o que queria, chorava como uma criança que havia perdido o brinquedo que mais gostava.

Via em Agnelo um exemplo a ser seguido. Talvez estivesse enxergando o que só ele via, através de um pensamento que foi buscar na sua infância. Afastava-se de todos os que dele se aproximavam. Só o amigo lhe fazia bem. Uma vez Angelo falou: entre a vida e a morte existe uma linha muito fina, semelhante a um fio de navalha. Ele queria trilhar seu próprio caminho, mas a estrada era de chão batido e cheia de pedras, e no momento estava descalço.

Passou a ter pensamentos tão ruins e confusos que poderiam ficar guardados para sempre no cofre do silêncio. Agnelo já havia feito a cabeça de seu novo amigo. Dizia ele: A nossa amizade faz parte do nosso presente e o seu futuro sou eu. Um depende do outro. Foram se acostumando com a idéia de que deveriam partir.

Sem consultar Agnelo, quis desfazer a amizade. Não queria partir, mas em seu último lance, perdeu.

            Foi para casa e descarregou o revólver.

 



Escrito por Rodrigo às 17h17
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Velhas Amizades


Carlos anda estressado. Nem sai de casa. Outras vezes, passa o dia fora. Hoje saiu para caminhar. Ontem para comprar vinho. Poucas pessoas na rua. Pára diante de uma loja de roupas masculinas, próxima ao prédio onde mora. Olha a vitrine. Permanece ali alguns minutos, mas não entra. Nem se lembra mais quando foi a última vez que comprou uma roupa. Continua a caminhada, quando ouve alguém lhe chamar.
- Carlos. Ei Carlos, espere.
- Mirian, sua cara-de-pau. Há anos não a vejo. O que tem feito? Por onde anda? Sinto sua falta. Você era minha vizinha preferida. Não mudou nada nestes dois anos.
Ambos se abraçam. Carlos agora teria uma companhia para caminhar. Mirian responde:
- Estou de férias. Quero aproveitar e rever alguns amigos. E também fazer as pazes com o Rogério. Faz um ano que ele viajou. Voltará na semana que vem. Os dias parecem voar.
- O que pretende fazer? Vai falar com ele?
- Sim. Só queria poder abraçá-lo uma última vez. Lembro-me de que ele gostava de passear comigo. Íamos a pé. Lembro sempre dele. Será que ainda está zangado comigo? Ele sempre gostou de mim. Foi depois da minha partida que ele mudou.
- Por que você acha?
- Nos falamos por telefone dois meses depois que eu parti. Ele disse que não ia poder me atender naquele momento, que estava ocupado e que eu não o procurasse por algum tempo. Me disse que ainda sentia minha falta. Se fosse o caso, ele me procuraria. E ainda me disse que eu era a responsável por tudo.
- Eu mostrei a vocês que esse não era o melhor caminho a seguir. Agora eu prefiro não opinar.
Carlos e Mirian continuavam caminhando. Tinham muitos assuntos. Carlos continuou:
- Foi bom você aparecer. Tem algumas pessoas que me aborrecem. Sei que são meus amigos, mas das minhas coisas cuido eu. Estou estressado. Quero só descansar um pouco com meus problemas. Esta é a minha posição.
- Vi ontem você na praça. Eu estava passando de ônibus. Aonde você ia ontem?
- Estava indo buscar uma garrafa de vinho. Lá naquele bar passando a praça. A bebida está me ajudando. Bebo tanto que no outro dia não lembro de nada. Esqueço os problemas e das amizades interesseiras. Só querem o meu dinheiro.
- Quem falou isso?
- Isso não importa. Desculpe a grosseria. Mas é que estou realmente chateado com meus amigos. Mais precisamente com alguns deles. Adoeci muito neste ano. Poucos me apoiaram. Não lhe falaram nada?
- Não me falaram nada a respeito. Você precisa de que?
- Preciso mudar para outro lugar. Aqui é muito claro.
Dizendo isso, muitas lembranças vieram a sua mente. Coisas boas e ruins. Se pudesse, não voltaria mais para casa. Seria um andarilho.
- Aonde você vai? Queres ir para algum lugar?
- Não sei aonde ir. Quero apenas continuar caminhando, se não se importa. A caminhada me faz bem. Gosto de observar as pessoas que passam por mim. Assim me distraio. E me alegro também. Vejo cada pessoa estranha. Olho para o rosto de cada uma e imagino o que pode estar se passando na vida desta pessoa. O que será que meu rosto está querendo dizer? Olhe para mim e me diga o que vê.
Surpresa com o que ouviu, Mirian responde:
- Está mais velho. E parece bem abatido. Perdeste aquela alegria.
- Já não sei o que é isso. Sei que preciso me recuperar, mas não sinto vontade. Acho que o que eu tinha para fazer aqui na terra eu já fiz. Volte comigo até o prédio em que moro. Sua companhia sempre foi bem vinda.
Ao ouvir essas palavras Mirian se emociona, mas sem que Carlos percebesse. Como podem estar fazendo aquilo com ele. Esquecido pelos amigos. Logo com o Carlos que sempre esteve pronto para ajudar quem quer que fosse. Um homem de bom coração, e, apesar de ter muito dinheiro, nunca ligou para isso.
- Quer que eu passe a noite contigo? Ficará bem sozinho? Estou preocupada com você. Me promete que amanhã nos falaremos.
- Está certo. Não se preocupe. Eu estarei bem sozinho. Passei assim um bom pedaço da minha vida. Já me acostumei.
Faltando poucas quadras para chegarem ao prédio, o telefone de Carlos toca. E para sua surpresa era o Rogério. Estava ligando para confirmar que voltaria na semana que vem. Que saber se Carlos pode buscá-lo no aeroporto. Ficaram ainda alguns minutos conversando. Tinham muita coisa para falar, mas este não era o momento. O que Rogério não sabia é que era a última vez que se falavam. Carlos comenta com Rogério que a Mirian voltou que está ali com ele, morrendo de saudades e querendo revê-lo. Rogério comenta que ligara para ela também. Carlos se despede de Rogério e de Mirian. Entrou no prédio, no apartamento, ligou o som, colocou uma música tranqüila, pegou a antidepressivo e tomou com o vinho que comprara ontem. Terminou com os dois.
E com ele mesmo.



Escrito por barcellosrodri111 às 10h11
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O Último Monólogo

Não era dessa forma que eu gostaria de começar, mas no momento não há outra maneira. Meu nome é Paulo. Não me pergunte sobrenome. Apenas Paulo. Tudo bem, eu falo. Tenho 48 anos. Eu sei que não parece. Aparento bem mais. Não sei se isso é bom ou ruim. Mas que se dane.
Estou com frio. A Janaína poderia estar aqui. Sexo esquenta. Já faz quatro dias que ela não aparece. Foi o dia do banho. Semana fria essa. Tomar banho e fazer a barba. Complicado, mas fazer o que, só faço isso ultimamente. Ela trabalha. A Janaína. E recebe por semana. Trabalha com atendimento ao público, à noite. Eu não trabalho. Minha mãe trabalha. É melhor assim. Ela morava comigo. Minha mãe. Não me agüentou e foi embora. Assim tenho mais liberdade para fazer o que quero, dizer o que penso dormir tarde, acordar tarde, não ter hora para comer e, e..., espera ai, não sei, tantas coisas que até esqueço. Lembrei, a mãe não gosta da Janaína e vice-versa. Pois que se matem e não incomodem.
Eu sei. Estou chato hoje. Tem dias que nem eu me agüento. Sei que não estou bem e as pessoas ainda me evitam. O que fiz ou o que estou fazendo de errado? Nada. As pessoas é que estão erradas. Erradas até em falarem que estou doente. O que elas sabem? Estão fazendo medicina? Pro inferno todo mundo. Estou cansado das pessoas. Elas me irritam. Não quero mais receber visitas. Só a Janaína. Ela não me evita. Será que ela vem hoje? Ela quer que eu faça o teste do HIV. Não que eu esteja infectado, estou bem fisicamente, tenho 1,89 m e 71 kg. Tomo remédio regularmente, com seringa, vai direto ao sangue. Durmo bem, em média 3 horas por noite, ou dia, tanto faz. Além é claro de fazer uma alimentação por dia. A Janaína disse que nem viajar eu posso, de tão magro. E que corro o risco de ser preso por contrabando de osso.
Só um instante. Pronto. Não sei para quem estou falando. Também nem quero saber. Alguém vai saber mais tarde. Depois, quando sentirem meu cheiro, o que resta de vida em mim nada mais é que um suspiro. Por enquanto, eu continuo aqui na poltrona em frente à janela. Vejo com olhos de cego. Espero que não doa. Não gosto de dor. E que seja rápido. Vai ser melhor assim. Dói um pouco, mas nada mal para quem se aplica sozinho. Tenho boa mira. Ainda tenho alguns minutos antes de começar a ficar sonolento, dormir e viajar.
Eu queria deixar algo de bom, mas não tenho, o que me resta são estas palavras, ditas com rancor. Acho que poucas pessoas irão ao meu enterro. Aprontei algumas, outras, umas tantas É hora de saldar o débito. E não tenho como voltar tudo. Sei que mesmo depois de morto as pessoas vão falar: O Paulo fez isso, fez aquilo e não passa de um doente. Que saco isso. Que morram todos também. Só querem falar mal, ajudar não. Eu também não ajudei ninguém. E não há mais nada a fazer. Apenas esperar. Mas está demorando. Eu devia ter feito uma dose extra.
Como sou filho único, Eu queria uma liberdade sem restrições. Eu gostava da minha vida antes. Eu era feliz. Eu poderia ter tido mais sorte. Talvez eu possa ainda de alguma forma melhorar. Melhorar o que? Já estou delirando. Não quero que chorem nem que sintam pena de mim. Não mereço isso. Semeei ventos e agora a tempestade vem bater à minha porta. Isso não me assusta. Já passei tanta coisa. Faria tudo diferente se pudesse. Pena que a vida seja tão rápida para algumas pessoas. Agora vou até o fim. Portanto, antes que eu vá, peço à quem ouvir, e se faça um trabalho sério pelas pessoas como eu, que precisam de ajuda, mas não pedem, devido ao seu orgulho em achar que podem resolver tudo sem ajuda de ninguém.
Sei que quebrei alguns vasos, vasos de carne e osso, e que não tenho como consertar. Não fui sempre assim. Eu era um sujeito tão altivo. E agora, sou alguém rancoroso que espera alguém. Alguém que sinto chegar, pois estou ficando sonolento. Antes de fechar os olhos quero deixar um recado para duas mulheres: Nenhuma de vocês teve culpa pela minha morte.
Merda, o gravador caiu.



Escrito por barcellosrodri111 às 09h38
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O Conto da Morte

Meu nome é Laureano Rodriguez Diaz. Morri dia vinte e..., não lembro, vinte qualquer coisa, 48 anos, vítima de enfarte. Sou controlador, estressado, fumante. Já vão falar de mim. Brigar pelos meus pertences. Será que nem morto terei sossego? Para falar a verdade, foi até bom eu ter morrido. Minha vida terrena não era nada além da rotina. Esposa, duas filhas. Tudo por minha conta. Agora, do velório ao tabelionato.
Quando estava vivo, fiz de tudo para protegê-las. Eu queria que elas fossem dependentes de mim. Elas é que não queriam isso. Minhas intenções eram boas e honestas. E achavam que eu era controlador, estressado. Mas que se danem. Eu era mesmo. Um dia elas também vão morrer e vão saber o que estou passando e como é o caminho até aqui.
É bom estar morto. Sinto - me até melhor do que quando estava vivo. Foi uma morte como qualquer outra - indiferente da maneira como se morre, todos têm o mesmo destino. No meu caso, o coração parou. E eu também. Quando vi, estava morto. Eu havia ficado em casa. Minha mulher e filhas haviam saído. Um pouco antes da minha morte tínhamos brigado. As brigas eram freqüentes entre nós. Minha esposa estava discutindo comigo, que eu não deixava que ela fosse independente, que tivesse seu próprio dinheiro, que eu a controlasse menos.
Minhas filhas também vieram para a discussão. Queriam seguir o próprio caminho, que eu não deveria me meter tanto na vida delas, que elas já estavam bem crescidas e que todo esse meu controle e cuidado, um dia ainda ia prejudicar alguém. E esse alguém era eu. Era eu contra três mulheres. Na verdade elas é que me mataram. Acho até que era isso que elas queriam. Sabem que me estresso facilmente. Discutimos bastante, todos exaltados, principalmente eu. Após meia hora de xingamentos, ofensas e muito cigarro, elas saíram.
E é ai que começa o meu tormento. Ou a minha redenção. Sentei-me no sofá. Percebi que ela estava chegando. Não teria como evitar. Eu estava até gostando. Era a minha hora. Só queria que fosse rápido e sem dor. Mas não foi bem assim. Sentia sede e estava tonto. Mãos trêmulas. Comecei a suar, mas estava com frio. Já não sentia minhas pernas. Respiração ofegante, náuseas, o coração acelerava e parava. E agora? Em pânico gritei. Em vão. Ninguém me ouviu, até porque foi meu último grito. Um grito de dor, de desespero, de angustia, pois até então, eu nunca tinha passado por isso.
Em segundos, muita coisa passou pela minha cabeça. Lembranças de uma vida que agora se esvai. Caído no sofá, fiquei engasgado com o próprio sangue que escorria pela boca. Ainda bem que o coração parou antes. Morto, com os olhos abertos e uma expressão que mistura pavor, medo e sofrimento. Gostaria de ter a expressão delas quando me viram caído no sofá. Queria na hora poder levantar e dizer-lhes que agora elas seriam felizes, pois eu estava morto. Estranho isto? Não. Eu não acho. Agora terei sossego. E elas não, porque estarei sempre por perto.


Escrito por barcellosrodri111 às 09h37
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Isolda tem que Morrer

Todos no prédio estavam horrorizados. Menos eu. Isso já não me surpreende. É a natureza que cuida disso, ou melhor, a lei natural da vida. Há de se manter o equilíbrio. Uns morrem para outros viverem. Algumas pessoas morrem por causa de assassinatos, outras morrem do coração, atropelados, o avião que caiu, uma bala perdida (muito em moda hoje em dia) e outras querem pular do alto dos prédios. E sem pára-quedas. Foi o que fez a Isolda. Pulou do 10º andar. Eu estava molhando o jardim quando vi seu corpo cair. Eu só tinha visto uma coisa assim pela televisão. O que queria ela com isso? Liberdade? Fuga de algo que de repente a incomodava? Sei lá. Antes ela do que eu.
Em frente ao prédio encontrei a Maria clara. É a irmã da Isolda.
- Oi Guilherme. Como vai? Estava ontem no prédio na hora do acontecimento? Todos aqui só falam uma coisa: Por que a loira do 10º andar se matou?
- Sim. Eu estava no prédio ontem. Que coisa hein? Logo a Isolda. Uma mulher bonita, com vários namorados. Não que ela namorasse vários, mas ela não era mulher de ficar sozinha. Muitas vezes eu confundi vocês. A diferença é que você é mais risonha. E ela só tinha 35 anos. Há quanto tempo ela estava separada? Lembra?
- Não. Esse negócio de datas não é meu forte. Mas me lembro que ela veio morar aqui já faz mais de um ano. Ela dizia que isso nunca aconteceria com ela. Uma mulher expectante, sempre na espera por alguma coisa boa, por um momento de satisfação. Ainda não acredito. Não achei que ela fosse capaz disso.
- A Isolda não era de muito papo. E acho que tem gente aqui no prédio que não gostava dela. Tu sabe né, aqui na portaria a gente ouve de tudo. Um dia desses, uns dez dias mais ou menos, ouvi umas conversas lá na churrasqueira, e alguém disse: A Isolda tem que morrer. Não gosto dela. Era uma voz de mulher.
- A Isolda me comentou uma vez sobre uma moradora aqui do prédio, que não gostava dela. Mas nunca dei muita atenção. Disse à ela que não desse bola para isso. Não é fácil agradar todas as pessoas. Vou subir até o apartamento, pegar algumas coisas. Me acompanha? O elevador está vazio, venha.
- Sim, vamos subir. Tens muita coisa para pegar? Tenho algumas caixas de papelão. Se precisar eu pego.
- Não precisa, é pouca coisa. Vou deixar algumas coisas também. Para vender mais tarde. Terei a despesa com o funeral. Até para morrer sai caro.
Lento este elevador. Nem parece que já estamos no século XXI. Até que enfim, 10º andar. Aqui. Nº. 1004.
Alguém entrou no apartamento depois do acidente?
- Só a polícia. Quanta foto espalhada pelo chão. Quem é essa menina com cara de sapeca agarrada nesta perua?
- É a Isolda com 5 anos. A perua é nossa madrasta.
- Desculpe, não quis ofender.
- Tudo bem. Ela não era flor que se cheire. Quanta bagunça. Nem vou levar nada agora. Voltarei outro dia para uma limpeza geral. Veja, há um recado na secretária eletrônica. Vou escutar.
Uma voz feminina aparece na gravação. Será que a policia escutou? Fala em uma língua que não entendo. Maria Clara chora. Fico olhando a cena, olho em volta e imaginando a Isolda indo até a sacada e pulando – suponho que tenha sido assim - A gravação continua e eu ainda sem entender o que dizia, achando tudo muito estranho, e no final da gravação, percebi que era a mesma voz que eu havia escutado no churrasco. A gravação termina com essa voz dizendo: Isolda tem que morrer.


Escrito por barcellosrodri111 às 22h37
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O Ipê Amarelo

Rafael caminha apressado. A rua está deserta, mas constantemente olha para trás. Está nervoso. Precisa de uma solução. Na mão a pasta preta. Ao chegar diante do prédio antigo, observa o número e entra. Evita o elevador, embora ele esteja no térreo, e sobe as escadas de dois em dois degraus, até o terceiro andar. Não comprime o interruptor e o corredor permanece na semi-obscuridade. Pára diante do apartamento 301. Com o nó dos dedos, bate.
A porta abre-se rápida, como se a mulher que o olha, expressão surpresa, estivesse espionando-o pelo olho mágico. Mas não. Tudo apenas coincidência. Ele sorri.
- Oi Sofia. Quanto tempo?
Ela tenta fechar a porta, mas o pé dele impede.
- Não me convida para entrar?
Sofia afasta-se, o homem entra e caminha pela sala, vazia de móveis.
A janela aberta permite ver-se uma copa florida de um ipê amarelo.
Ele volta-se, sorri novamente.
- Você sempre gostou de espaços vazios.
- O que você quer Rafael?
- Você bem sabe.
- Se eu soubesse não perguntava.
A mulher encosta-se na porta. Olhos fitos na mão do homem que abre a pasta preta.
- Lembra disto? Vejo que sim.
- O que você quer?
- Você bem sabe – repete ele, e se aproxima.
Sofia afasta-se e vai até a janela. Rafael, que deixara a pasta perto da porta da cozinha, no chão, vai também. Por um instante, observam o ipê amarelo que serve de jardim para Sofia. Rafael fala:
- Preciso de seus serviços. Por isso vim. Caso não me ajude, as autoridades saberão o que tem na pasta preta. A decisão é sua.
Pensativa, ela o encara.
Como pode ele ter vindo aqui? Ainda não entendo. Como me achou? Não o estava esperando. E quanto à proposta? E o conteúdo da pasta? Em poucos segundos, isso e muito mais coisas passaram em sua mente. Voltou a si.
E falou:
- Que tipo de serviço? Eu estou na mesma. Faria tudo diferente se pudesse. Não quero mais isso.
- Eu nunca tinha vindo aqui antes.
- Você não tem mais nada a fazer aqui! Se eu tivesse condições, ficaria aqui por alguns anos. Sinto-me bem agora, mas não posso formar um único jardim. Por isso deixo a janela aberta. Pelo menos olho para a árvore.
- Ajude-me com o serviço. Precisa ser feito. Depois pode descansar, ou comprar alguns móveis, ou cultivar um jardim.
– É. Mas nada garante que isso mudará. Tudo não passou de um equívoco. Sei que não vai dar em nada. Mas vou te ajudar. Mas não despreze essa oportunidade.
- Tudo bem. Mas algo tem que ser feito. Preciso que elimine alguém. Um homem. Tudo sobre este homem está na pasta. Você ficara com ela e com tudo que está ali dentro. Confio em você. Se me ajudar, ficará com as provas contra você que estão nela.
Sofia pega a pasta do chão. Olha o dossiê da futura vítima. Muitas fotos e informações. Leu algumas em voz alta. “Procurava sempre obter vantagens”. “Seu único desejo era ter ainda mais prestígio”. “Seu prestígio declinava à proporção que a origem dos seus bens era investigada”. “Vendeu seus bens e mudou-se”. “Narre o que viu ninguém contará nada a ela”. “Ele queria ser o presidente da empresa”. “Teria sido ele o autor do crime?”
Ao ouvir esta última frase, Rafael responde:
- Tenho lutado pelas coisas que acredito. E digo o que penso. E você e eu sabemos e conhecemos o autor do crime. Assim ficará mais fácil para você. Peço também que aja com discrição.
- Sempre agi assim.
- Achei que nada mais poderia ser feito. Mas agora estou tranqüilo. Então se prepare para o xeque-mate.
Sofia vai até a cozinha. Rafael ficara na janela, olhando para fora. Quando ela volta, pede a ele que lhe dê um abraço. Antes dos braços de Rafael envolverem àquela que lhe pedira tal coisa, sente algo lhe furar a barriga, uma, duas, três vezes.
Com a faca na mão, ela observa o corpo no chão, mas ainda vivo. Aproxima-se dele, sussurra-lhe algo ao ouvido e lhe dá um último golpe. Ao lado do corpo, próxima à janela e queimando um monte de papel e fotos, ela observa o ipê amarelo.



Escrito por barcellosrodri111 às 22h27
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