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Rodrigo no mundo dos contos, contos no mundo de Rodrigo


Miados Humanos

Não quero morrer não quero morrer, era o que eu gritava, uma menina de 13 anos, sozinha num abrigo para menores, o suor escorrendo na testa, mãos úmidas e pés gelados. Pés que não andam mais. Pés sempre gelados. E o silêncio, mudo e apavorante. O abismo, quando visto de cima, é assustador. Quando caí olhei pro alto, e o céu ia lá longe. Algumas vezes amanhecia com dor de cabeça e com a gata em cima das minhas pernas. Ali ela não tinha peso. Apareceu aqui uma noite dessas e foi ficando. Não sei de onde veio. Nem se importava de eu não levantar da cama para brincar com ela.

O que mais gostei nela foi o seu pelo negro. Queria ter cabelos dessa cor.

O que restou foi este quarto. E a janela, sempre meio aberta. É por onde ela ia e vinha e eu espiava a rua, sempre a mesma coisa, o mesmo pedaço aberto de poucas imagens. Só a gata. Algumas vezes aparecia molhada, suja, magra. Noutras, toda machucada. Era quando permanecia mais tempo. Teve um dia que ela apareceu com um presente pra mim. Uma pomba, enorme e da cor da noite. Acordei com a gata sentada ao meu lado com a ave na boca já sem vida. Depois trouxe aranhas, ratos, cobras e até um filhote de cachorro. Uma noite acordei de um pesadelo, assustei a gata, que mordeu meu pé, sem dor física, apenas o movimento involuntário, o pé sem vida que reage à dentada.

          Dentada que não sarou. O pé apodreceu, depois a perna, depois...

Depois foi diferente e estranho. Eu ainda estava no quarto, mas fora da cama, onde pra mim tudo é novo. Não havia suor escorrendo nem mãos frias e pés úmidos. O coração batia mais rápido, a visão dilatada e os sons. Mais altos. O cheiro tem outro aroma. Sentia o corpo mais leve e ágil. E fome. Muita fome. Precisava de alguns petiscos. Uma pomba ou um rato quem sabe. Foi quando vi a janela meio aberta me chamando pra rua. Depois de muito tempo eu estava solta daquela cama e longe do quarto, sentindo o vento tocar meu pelo negro. Agora, não tenho mais medo do abismo. Sei que não vou mais cair. Isso aconteceu quando eu ainda era uma menina.

 

Teve um dia que eu voltei lá. A mesma janela meio aberta, o quarto, a cama. Dessa vez não entrei, quis ficar ali observando aquele corpo na cama e escutando seus miados humanos.



Escrito por Rodrigo às 11h05
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No Enterro

            Estavam a sós com ele. Ela na frente dele, o outro no meio, deitado e sem cor. A última vez que estiveram juntos foi ano passado. O morto ainda era vivo. E não sabia de nada. Morreu sem saber. E os dois ali, de pé.

            — Agora não adianta chorar – disse Camilo.

            — Sei, mas acho que tínhamos que ter contado – falou Matilda.

            — Da minha boca era que não – diz ele

            — Eu ia falar pra ele na virada do ano – a mulher responde ainda chorando.

            Por um momento ambos se olham e não dizem palavra. Apenas olham. E o outro ali, como se ouvisse tudo, mesmo morto.

            — Matilda, acha que ele ia gostar de saber que o pai do neto dele é o próprio tio?

 

 



Escrito por Rodrigo às 10h56
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A Face de um Rosto

Bate palminha bate. Lembra? Um refrão e uma boneca. De carne, osso e neblina. Bate palminha bate. Uma noite nebulosa sob temporal iminente. Festa de dia das bruxas no cemitério da cidade. Cada qual dos presentes mais morto que o outro. Alguns mortos pareciam bem reais. Bate palminha bate. Comecei a ouvi-la. Uma música. Quase um uivo. Sentia um cheiro diferente. Uma mistura de cheiros misturados em um só. Forte e excitante. Um trovão. E a música parou com o cemitério vazio.

            O tempo pareceu dar tempo a ele próprio. As lápides na terra. A grama irregular, igual aos meus passos, em direção ao cheiro, que vinha dali, do Campo-santo. Sobre um túmulo, manchada de sangue, jaz uma boneca. Daí o cheiro. Uma rajada de vento voa por mim. E os raios. Árvores sem folhas pareciam ter vida. Atrás delas, uma mulher de vestido transparente e um capuz tapando sua cabeça e rosto. Acham que tudo não passou de delírio meu. Basta me olhar. Nuvens carregadas pairam no céu. O silêncio  era ensurdecedor.

            Em meio à neblina ela surgiu. Me envolveu num abraço. A morte a me abraçar? Uma morta-viva? A resposta veio ao ouvir sua voz, que me sussurrou ao ouvido: “De onde venho o fator tempo não existe. E aqueles que nunca dormem precisam se manter ocupados. E eu quero me ocupar de você. Quero fazer de você meu boneco, meu objeto, meu brinquedo”. Seu corpo frio junto ao meu, suas unhas cravando na minha carne. Um grito sem voz saiu da minha boca. Não sentia meu corpo. Ao tentar fugir ela me domina e usa meu corpo.

            Sem forças para reagir, tamanho era meu pavor, o que me manteve de olhos fechados. Ao abri-los, o que vi foi um corpo sem rosto. Uma névoa debaixo do capuz. Nada era dito nem ouvido, apenas o silêncio. Ela tira o capuz e a névoa se desfaz, assim como a neblina. E chove  Uma face começa a tomar forma. Um rosto familiar, porém estranho. Escuto de novo a música, como um sussurro que foi crescendo em meus ouvidos. Bate palminha bate. Foi quando caí desacordado.

Acordei de dia, molhado e deitado no barro, próximo a um túmulo, meu pescoço doía e não havia mais sangue. Ao olhar em volta, uma boneca pendurada numa árvore, como se tivesse sido enforcada. Seus braços e mãos faziam um movimento como se estivesse batendo palmas. Não via sua cara, devido à distância. Fui até lá. Algo diferente nela. A cabeça maior que o corpo. Um não fazia parte do outro. Ao virá-la para mim não pude conter o grito, desta vez alto.

Era o meu rosto que estava ali.

 

 



Escrito por Rodrigo às 10h50
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O Examinador

 

            Faz alguns meses que comecei neste emprego, e até que não é dos piores. Carga horária de seis horas diárias. Duas folgas semanais. A mesma coisa sempre. O que muda são as pessoas e seus problemas. Abro, examino, fecho. O pior é o cheiro. Todos fedem, mas já me acostumei. As mulheres estão aparecendo mais. Elas tendiam a fugir de mim. Agora não. Faço o que quero e a última palavra é a minha. Lembro dos noturnos de Chopin, do whisky sem gelo, de Bukowski. Mas estava ali. Eu e  alguns instrumentos de trabalho. Um corpo inerte como aqueles que se encontram sobres as macas.

Meus talentos e conhecimentos não são muito práticos, mas me viro. Estatura mediana, pele morena, olhos azuis, cabelos negros, sem barba. E  alguns parentes. De uma forma ou de outra tenho que trabalhar. No começo era tímido. Agora já perdi até o nojo. Todas as minhas representações são situações reais. E o vício é o principal responsável por isso. Depois que se experimenta, é difícil sair. Aumenta a sensibilidade e deste modo desejo o que não é desejado por muitos. O ponto de partida é a chegada. E vem mais uma. Helena. Esse nome tem história na literatura.

            Batem à porta. É ela. Quem a trouxe é pessoa de confiança. Perguntei se gostaria de participar do trabalho. Respondeu que não, pegou o dinheiro e foi embora. E ela ali, deitada de lado, a cabeça sobre o braço esquerdo. A perna direita dobrada sobre a outra. O outro braço para fora da maca. Parece me esperar. Mulher nova. Ainda quente. E sem odores. Mesmo assim, acendi um incenso e um cigarro. Expressão séria, seios fartos, coxas grossas e lábios à espera de beijo. Beijo com aroma de bebida. Vestido verde, meia calça preta e calcinha da mesma cor.

Em vez de atingir diretamente o centro de seu corpo ou algum recanto mais profundo, deito-a com  a barriga para cima, os braços atrás da cabeça, servindo de apoio, pernas esticadas sobre a maca e fumaça de cigarro em meu olho. De uma forma ou de outra, todas as que passaram por aqui, estavam envolvidas num misto de culto ao sexo e à beleza. E pelo menos não fingem os orgasmos. Pele suave, juvenil. Obcecado por esta idéia, quando o desejo toma conta de cada poro e pelo do corpo, apago o cigarro e viro-a de bruços, uma mão sobre a outra, a cabeça apoiada nelas, pernas esticadas.

Hora da autópsia. Quem deseja tem sempre razão, porque atende a um apelo natural. Algo inflamou em mim, sem tabus, sem medos e dúvidas. Antes de trabalhar aqui eu nunca havia feito nada além de...de.....bem, não vem ao caso. Com movimentos contínuos, vou sentindo seu corpo, descobrindo sua sexualidade, mãos a vasculhar orifícios apertados. Que homem dotado de órgãos vigorosos, não deseja molestar o corpo alheio?  Até que ponto, se há algo de absurdo no mundo, um homem pode controlar seus desejos? Levanto seu vestido e afasto a calcinha, o botão da abertura, a carne macia, pequenas delicadezas que me atraem. Meus excessos são refinamentos de minha baixeza. Leviano e brutal empurro até o fundo. Sobre seu corpo vou alternando os movimentos. Não tive como conter o gozo. Uma pausa para um cigarro e para calibrar o instrumento.

Ainda não acabei a autópsia.

 

 



Escrito por Rodrigo às 10h48
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A Casa da Colina

Não há muito que se ver naquela casa assombrada. Apenas morcegos gigantes, ratazanas famintas, cachorros que mais parecem lobos e outros animais peçonhentos. Fica lá na colina. À sua volta, chão de terra batida e nada de plantas. Apenas uma árvore em clima de outono. Nas janelas nenhum vidro. A porta está trancada com uma corrente enferrujada e algumas tábuas velhas. Na extremidade oposta, há um grande portão de ferro que não funciona, pintura avermelhada e com marcas de ferrugem. Buracos são muitos, sem contar as tábuas soltas e podres. No telhado, furos e telhas faltando. Na chaminé, fumaça não há. O limo está por todos os cantos. Dentro, a putrefação é total. Crianças que morreram na casa perambulam por ela todas as noites. Dizem que estranhas coisas acontecem lá. Coisas do sobrenatural. Mesmo assim, Tiago vai até lá. Quer ver as crianças. Mas ainda não viu nada. Ainda.

Ele é um menino de doze anos, sem família, criado nos bueiros com os bichos. Vai acabar se tornando um. E desde que se conhece por gente, a casa faz sua imaginação voar. Ouviu muitas histórias sobre ela. Agora ele não quer ouvir, quer ver e sentir o que ela tem. Medo não sente, só curiosidade. E essa curiosidade pode leva-lo a uma situação na qual ele nunca teve. Já tem onde dormir.

Pula a janela de um salto. Lá dentro, escuro. Ouve vozes de crianças. Choros e risadas estridentes. Gritam seu nome. Já anoitecera. Pelos buracos do telhado, a lua espia lá de cima. Nenhuma nuvem se atreveria a passar por ali. Só a fumaça da chaminé, leve e quase imperceptível, a não ser pelo cheiro de osso queimado. Por dentro, a casa parece ainda maior. Anda pelo local bem devagar. Mais vozes gritantes o chamam. Lá fora, a árvore balança com o vento. O portão de ferro também sacode, tábuas e pedaços do telhado caem aqui e ali. Tiago escorrega no limo ao desviar de uma telha e cai. Assim ficara.

Ainda no chão, vê que não está só. Perto do portão, uma garota sem visão enxerga pelos olhos do cachorro. No outro lado, na porta, um garoto alimenta com seu próprio corpo a ratazana faminta. E voando a meia altura, com uma menina na garupa, um morcego cobre quase todo o telhado com suas asas abertas. O vento já não venta, não há mais lua e o céu está coberto de nuvens. Ele olha um de cada vez, e é olhado por todos ao mesmo tempo. Ainda no chão. Ainda.

Aparecem outras crianças. Todas mortas, emitindo sons estranhos e cada vez mais perto dele. O cheiro é forte. De tudo. A chaminé agora está fumegante. A fumaça que sai é escura e tem cheiro de morte. A casa balança, telhas e algumas madeiras caem por todos os lados. Há mais limo e barro à volta de Tiago. E eles ali, a um toque. Fazem um círculo à sua volta. Não há medo nele. Apenas aceita o que buscou.

 

Ele agora faz parte da casa.



Escrito por Rodrigo às 10h47
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A Melodia

 

Algo me acordou de um sonho confuso. A melodia não estava... e... Ernesto corria sempre. Eu gostava de passear a beira-mar. As ondas batendo na areia. Música para os ouvidos. Agora tudo é estranho e novo. E só. Meus sussurros saem aos berros. Emoldai Tneroes. Quando durmo, sonho com uma pessoa me falando isso. Acordado, ela não vem. A melodia. Ernesto? Aqui é frio, e não há sol, mesmo com a janela aberta. Alguém ai? Chamei a morte algumas vezes, mas ela nunca veio ao meu encontro.

O coração apertado e uma saudade de qualquer coisa esquecida em algum lugar desta cabeça confusa. Tão dolorido no íntimo, chorei. Não sei quanto tempo estou aqui. Tudo em mim estava errado. Mas não sou capaz de revelar com clareza alguns detalhes. Pode haver no mundo algo que vença em mim essa vontade de morrer? Já que encostei o copo nos lábios, bebo até o fim. Ouço a melodia. Ernesto? Será um devaneio? Há alguém que escute meus sussurros?

Um cheiro doce e pegajoso pelo quarto. Ruído de vozes, gritos longos e estilizados. Portais se abrem e vagueio por uma paisagem imensa. Alguém? O sino ressoou em algum lugar. Ou dentro de mim. Minha alma está disfarçada de sentimentos confusos. Pela janela, vejo a neve cair sobre as calçadas e no meio da rua deserta. É o que me resta. “Havia num porão uma criança, de seis anos de idade. Despertou certa manhã no chão frio e úmido. Coberto com seus trapos velhos tiritava”. Pedaços de mim deixados num canto e esquecidos entre as folhas de um livro. Nas docas da insônia e em pálidas esperanças, tento achar a melodia. Exilado em mim mesmo e com o olhar perdido, um doido que busca a sabedoria, que provou o sabor da amargura. Um homem que procura o respeito a si mesmo.

Aconteceu de repente e sem que eu o tivesse desejado. A razão é uma coisa excelente e eu a perdi. Lá fora, a neve ainda cai. Ernesto? Alguém? Onde estão todos? Fico apenas com minha inteligência doentia. Jamais fui capaz de sonhar com algo real. Não falo coisa com coisa e minha cabeça dói. Alguém ai?  Depois de tantos anos, o que querem de mim? Nada tenho a oferecer.

Sinto um aperto no coração e minhas mãos tremem. Escuto as ondas quebrando na areia. Ele vem chegando, depois de eu tanto chamar. A melodia não estava pronta, mas agora... uma música singular... e Ernesto brincando na água. Me olha e eu me vejo criança. Corre ao meu encontro. As ondas quebram de manso na areia. A melodia.

Vou novamente passear a beira mar.

 

 

 

 



Escrito por Rodrigo às 10h46
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O Ipê Amarelo

Rafael caminha apressado. A rua está deserta, mas constantemente olha para trás. Precisa de uma solução. Na mão a pasta preta. Ao chegar diante do prédio antigo, observa o número e entra. Evita o elevador, embora ele esteja no térreo, e sobe as escadas de dois em dois degraus, até o terceiro andar. Não comprime o interruptor da luz, não quer que o vejam ali. Pára diante do apartamento 301. Com o nó dos dedos, bate.

A porta abre-se rápida, como se a mulher que o olha, estivesse espionando-o pelo olho mágico. Mas não. Tudo apenas coincidência. Ele sorri.

— Oi Sofia. Quanto tempo?

Ela tenta fechar a porta, mas o pé dele não deixa.

— Não me convida para entrar?

Ela afasta-se, o homem entra e caminha pela sala, vazia de móveis. A janela aberta permite ver-se uma copa florida de um ipê amarelo.

Ele sorri novamente.

— Você sempre gostou de espaços vazios.

— O que você quer Rafael?

— Você bem sabe.

— Se eu soubesse não perguntava.

A mulher encosta-se à porta. Olhos fitos na mão do homem que abre a pasta e pergunta:

— Lembra-se disto? Vejo que sim.

— O que você quer?

— Ainda não sabe – e se aproxima.

Ela sai de perto dele e vai até a janela. Rafael, que deixara a pasta perto da porta da cozinha, no chão, vai também. Por um instante, observam o ipê amarelo que serve de jardim para Sofia.  Ele fala:

— Preciso de seus serviços. Por isso vim. Caso não me ajude, as autoridades saberão o que tem na pasta. A decisão é sua. Pensativa, ela o encara.

Como pode ele ter vindo aqui? Ainda não entendo. Como me achou? Não o esperava. E quanto à proposta? E o conteúdo da pasta? Em poucos segundos, isso e muito mais coisas passaram em sua cabeça. Voltou a si. Falou:

— Que tipo de serviço? Eu estou na mesma. Faria tudo diferente se pudesse. Não quero mais isso.

— Eu nunca tinha vindo aqui antes.

— Você não tem mais nada a fazer aqui. Se eu tivesse condições, ficaria aqui por alguns anos. Sinto-me bem agora, mas não posso formar um único jardim. Por isso deixo a janela aberta. Pelo menos olho para a árvore.

— Ajude-me com o serviço. Precisa ser feito. Depois pode descansar, ou comprar alguns móveis, ou cultivar um jardim.

— É. Mas nada garante que isso mudará. Tudo não passou de um equívoco. Sei que não vai dar em nada.

— Tudo bem. Mas preciso que elimine alguém. Um homem. Tudo sobre ele está na pasta. Confio em você. Se me ajudar, ficará com as provas contra você que estão nela.

Sofia pega a pasta do chão. Olha o dossiê da futura vítima. Muitas fotos e informações. Leu algumas em voz alta. “Procurava sempre obter vantagens”. “Seu único desejo era ter ainda mais prestígio”. “Seu prestígio declinava à proporção que a origem dos seus bens era investigada”. “Vendeu seus bens e mudou-se”. “Narre o que viu, ninguém contará nada a ela”. “Ele queria ser o presidente da empresa”. “Teria sido ele o autor do crime?” Ao ouvir esta última frase, Rafael responde:

— Tenho lutado pelas coisas que acredito. E digo o que penso. E você e eu sabemos e conhecemos o autor do crime. Assim ficará mais fácil para você. Peço também que aja com discrição.

— Sempre agi assim.

— Achei que nada mais poderia ser feito.

Sofia vai até a cozinha. O outro ficara na janela, olhando para fora. Ela volta trazendo uma faca e vai em direção a ele. Com um movimento rápido ela fura a barriga de Rafael uma, duas, três vezes. Com a faca na mão, ela observa o corpo ainda vivo. Aproxima-se dele, sussurra algo em seu ouvido e lhe dá um último golpe.

Próxima à janela e queimando um monte de papel e fotos, ela observa o ipê amarelo.

 

 

 



Escrito por Rodrigo às 10h45
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Um Par de Botas em Fuga

Eu nem sabia que ele ainda existia. E me aparece assim de repente. Não posso me deixar levar, tenho as crianças, a casa, meu marido. A mesa posta. Espero que agora não haja nenhum mal entendido. Tomara que tenha mudado. Era tão lindo, estiloso e revoltado. Usava umas botas pretas de couro, dessas tipo caubói e jaqueta do mesmo material. Somos diferentes. Ele sempre fugiu das responsabilidades. Nem parece que temos o mesmo sangue. Devo deixar de lado o que passou? Batem à porta. Eu abro e ele entra, me olha e eu leio a verdade, e esta me dói. É uma dor de ter feito o que não desejava. Ou sim. Tentei não pensar em nada, só tentei.

            A comida sobre a mesa é só espera. Olho para ele, não falo coisa com coisa. Não me sinto segura ao seu lado. Droga. Peço que ele sente à mesa, que não se acanhe, é comida caseira, preparada há pouco. Ele senta ao meu lado e sente-se em casa. Ele me olha como se não entendesse. Levanto da mesa e ele também. Vou até a sala e ele me segue, escuto o barulho das botas pelo corredor. Aponto para o sofá, o que recusa, prefere ficar em pé. Eu também. Pergunta pelas crianças, uma em especial. Falo que não é da conta dele. Pergunto:

— O que quer?

— Quero relembrar. Vou embora amanhã.

— Não temos o que relembrar.

— É? O segredo do passado faz parte do presente.

— Só se for do teu presente. As crianças têm um bom pai.

Pena que não tenham uma boa mãe.

— Tu não quis saber dele. E eu nem sabia que tu ainda existia.

— Ainda existo, presente na tua rotina.

            Ele me agarra pelo pescoço com raiva nos olhos. Tento me soltar, não consigo. Me bate no rosto e caio no sofá. As crianças vão chegar daqui a pouco, penso. Devia ter contado a verdade antes. Bem, menos mal que é só uma delas. E para todos os efeitos, o erro é dele. Diz algumas coisas que não entendo e me bate de novo. Desta vez sangro.

Tu não presta mesmo.

— Isso não é novidade.

— Achei que tinha mudado.

— Antes eu não batia em mulher.

            Pelo cabelo ele me puxa do sofá. Bate outra vez. Rasga minha blusa e sutiã. Tento sair, mas quase quebra meu braço. Agarrada pelo pescoço ele levanta minha saia. Cuspo na cara dele, saliva e sangue. Bate de novo e sinto desfalecer. Caio no chão, iluminada pelo sol que entra pela janela. Sem forças para reagir, ele me invade como das outras vezes. Minutos depois ele sai de cima de mim, satisfeito da sua vontade incestuosa. Ainda no chão, vejo o sol iluminar um par de botas fugindo.

 

As crianças vão chegar daqui a pouco.



Escrito por Rodrigo às 10h44
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